Somos a intuição de que o elemento mental fundamental para se conseguir seguir uma dieta é o entendimento de que nenhum alimento vai preencher o tipo de vazio que o glutão (mesmo aquele, admitindo o vício em pequena escala, se considera apenas 'guloso') evita. Receba este vazio o de nome de 'desesperança', 'tédio' ou 'busca de prazer' e receba o impulso que tenta apaziguá-lo o de 'fome' (saber distinguir a fisiológica da psicológica é vital aqui!), de 'gula' (na versão pantagruélica ou naquela 'gourmet') ou de mera ação reflexa de deglutir em estado de semi-inconsciência da atenção.
(lembremo-nos que uma das situações fisiológicas em que não há possibilidade de se experimentar a ansiedade é a de engolir - quando extremamente ansiosos nem saliva nos desce pela garganta. Donde, para evitar a ansiedade, podemos deglutir sem cessar. Esta foi um dos mais perenes ensinamentos que me ficou de uma Pós em Neurociências).
Somos a tentativa de, ao nos comunicarmos conosco mesmo - e com qualquer Outro que acredite nesta intuição - sobre este assunto, sobre este equivocado anseio e o paralelo desejo de ir além dele , conseguirmos desfazer, pouco a pouco, esta conexão mental , ou seja: a de que comendo consigamos suprir um vazio de ordem psicológica.
Somos este movimento reflexivo que ensaia uma nova relação corpo-espírito no que diz respeito a uma verdadeira "reeducação alimentar', a par de uma percepção constante das dinâmicas psicológicas que a estariam sabotando. Procuramos 'ir além' dos diferentes tipos de disciplinas coercitivas e mal-sucedidas que seriam traduzíveis por 'impor-se uma dieta'. Já o fizemos muitas vezes e não deu resultados duradouros. Sob o ponto de vista objetivo, estamos altamente informados das múltiplas possibilidades de escolha de alimentos mais ou menos calóricos, em quantidades mais ou menos abundantes, em horários mais ou menos espaçados... sabemos dos ganhos paralelos dos exercícios, dos sobre-esforços, até mesmos dos momentos de tensão exagerada que conduzem a paradoxais ( e passageiras, em geral) "perdas de peso por conta de situações de lutos ou stresses similares". No momento, escolhemos um modelo mais tradicional de 'alimentação onívora controlada' com ingestão moderada de carboidratos. mas este não é o foco deste blog.
Este blog visa a que eu me obrigue a conversar comigo mesma sobre a fome e o vazio, o vazio e a dieta, suas variações, seus correlatos etc. Seja esta reflexão a mais privada possível - no sentido de que para mim ela não visaria (acho) publicidade (todavia companheiros que partilhem esta intuição seriam certamente bem vindos/as) - ao se tornar pública pelo simples fato de se expressar através de um blog ela se beneficia de um tom de compromisso para com um projeto. Devo utilizar a meu favor um outro tipo de disciplina que me é muito mais fácil de seguir: aquela para com meus projetos intelectuais. Um truque, sem dúvida, mas nada me custa nele apostar.
Se preferirmos nos exprimir por metáforas poéticas - forma bem mais inteligente de preencher um vazio - vamos nos dedicar a uma mágica que jogue com o que é pleno e o que é vazado!
Não quero ir a mais endocrinologistas ou nutricionistas, investir tempo e energia em planejamentos que não levam em consideração o que me parece agora ser o fator crucial de minha falência em me alimentar adequadamente. Ou seja, que a minha dieta alimentar seja mais coerente com o que eu também considero uma vida mais bem vivida, pois capaz de enfrentar os existenciais vazios e não de insistir em tentar evitá-los de maneira tão primária e autopunitiva como com a ingestão demasiada de comida.
Bem, esta é a primeira página desta história a ser escrita. Vamos ver como se sucederão os próximos capítulos.



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