terça-feira, 28 de outubro de 2014

Primeira etapa: Observação

Em geral, começamos uma dieta e/ou reeducação alimentar por afinidade com as proposta do que me vai provocar  'menos fome' ou de 'maior simpatia pelos tipos de alimentos permitidos'. Mas o que tenho 'me permitido" ultimamente? São tantas dietas, há tanto tempo!  Já não sei do que gosto mais ou menos, senão pelo viés do 'abuso do permitido' e da desforra no proibido'. Alterno períodos de pradarias infinitas de saladas ou quilos de cortes bovinos e galináceos sem gordura com pantagruélicas ingestões de chocolates, paçocas e sorvetes.

Ao lado faminto corresponde sempre aquele glutão 
Não reconheço mais o que meu organismo como um todo estaria precisando, o que me provoca sono ou mais fome ainda. Se o que sinto é sede, se é fome, se é gula, se é só o preencher um momento de tédio ou de preguiça de fazer coisa chata e útil, paralelo, em geral, a olhar (sem ver sequer)  qualquer coisa na televisão.

Que tal desistir por um tempo do controle da balança e me observar e conversar com minhas modalidades e frequências de ingestão? Relacioná-lo com o que faço em seus intervalos ou mesmo durante elas ? Não vai deixar de haver - o hábito mental é forte - uma certa tensão em relação às calorias que este ou aquele alimento acumula ou poupa. Mas sua tônica em minha atitude pode ser mais frágil do que aquela que incita à sua constante transgressão.

E a observação em si mesma - o menos viciada por minhas expectativas e receios possível ! -  me parece um exercício interessante.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Invertendo expectativas e ritmos

A maioria das dietas e reeducações alimentares começam com um 'choque' nos hábitos. Alguns dias de sopão de legumes, para limpar o organismos. Uma semana  só de carboidratos para queimar os excessos de quilos  e -  ante resultados visíveis -  'ganhar ânimo' para os próximos sacrifícios. O ritmo mecânico que caracteriza nosso cotidiano, a pressa ansiosa pelo resultado são suas características. Ignora-se que, se o acúmulo de gorduras veio gradualmente, para dissolvê-lo efetivamente, impõe-se um outro tipo de 'comando' ao organismo.
 Neste nosso projeto, não há pressa. O resultado externo não é a prioridade: a obtenção dos dificílimos ganhos duradouros busca outra lógica. O tempo que se adeque a nossa capacidade de observação e percepção e conhecimento de nossas conexões fome-gula-apetite, satisfação de necessidades, usos e abusos do prazer gustativo e detalhes que tais.


Faz parte do projeto uma dupla visão de nossa correria rumo a resultados e do quão ela é inútil e superficial, face a dar consistência e justificativa a uma dieta a cada um de nós adequada, nos seus muitos níveis de se prestar positivamente  à saúde, à estética e a um senso pessoal de capacidade de realização de um objetivo. Todas estas vias simbólicas se interpenetram e confundem ante nossa limitada capacidade de observação e de entendimento. Foquemo-nos no aguçamento desta condição de apreensão e sejamos pacientes conosco mesmos. 


E um senso do lúdico e de ligeiramente absurdo deve permear nossa auto-crítica. Sejamos carinhosos com nossa impaciência e não confundamos encontrar o nosso ritmo com preguiça.  Não é para ser sofrido ! 

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sábado, 25 de outubro de 2014

Quem somos

Somos a intuição de que o elemento mental fundamental para se conseguir seguir uma dieta é o entendimento de que nenhum alimento vai preencher o tipo de vazio que o glutão (mesmo aquele, admitindo o vício em pequena escala,  se considera apenas 'guloso') evita. Receba este vazio o de nome de  'desesperança', 'tédio' ou 'busca de prazer' e receba o impulso que tenta apaziguá-lo o de 'fome' (saber distinguir a fisiológica da psicológica é vital aqui!), de 'gula' (na versão pantagruélica ou naquela 'gourmet') ou de mera ação reflexa de deglutir em estado de semi-inconsciência da atenção.
(lembremo-nos que uma das situações fisiológicas em que não há possibilidade de se experimentar a ansiedade é a de engolir - quando extremamente ansiosos nem saliva nos desce pela garganta. Donde, para evitar a ansiedade, podemos deglutir sem cessar. Esta  foi um dos mais perenes ensinamentos que me ficou de uma Pós em Neurociências).  

Somos a tentativa de, ao nos comunicarmos conosco mesmo - e com qualquer Outro que acredite nesta intuição - sobre este assunto, sobre este equivocado anseio e o paralelo desejo de ir além dele , conseguirmos desfazer, pouco a pouco, esta conexão mental , ou seja: a de que comendo consigamos suprir um vazio de ordem psicológica.

Somos este movimento reflexivo que ensaia uma nova relação corpo-espírito no que diz respeito a uma verdadeira "reeducação alimentar',  a par de uma percepção constante das dinâmicas psicológicas que a estariam sabotando. Procuramos 'ir além' dos diferentes tipos de disciplinas coercitivas e mal-sucedidas que seriam traduzíveis por 'impor-se uma dieta'. Já o fizemos muitas vezes e não deu resultados duradouros. Sob o ponto de vista objetivo, estamos altamente informados das múltiplas possibilidades de escolha de alimentos mais ou menos calóricos, em quantidades mais ou menos abundantes, em horários mais ou menos espaçados...  sabemos dos ganhos paralelos dos exercícios, dos sobre-esforços, até mesmos dos momentos de tensão exagerada que conduzem a paradoxais ( e passageiras, em geral) "perdas de peso por conta de situações de lutos ou stresses similares". No momento, escolhemos um modelo mais tradicional de 'alimentação onívora controlada' com ingestão moderada de carboidratos. mas este não é o foco deste blog.


Este blog visa a que eu me obrigue a conversar comigo mesma sobre a fome e o vazio, o vazio e a dieta, suas variações, seus correlatos etc. Seja esta reflexão a mais privada possível - no sentido de que para mim ela não visaria (acho) publicidade (todavia companheiros que partilhem esta intuição seriam certamente bem vindos/as) - ao se tornar pública pelo simples fato de se expressar através de um blog ela se beneficia de um tom de compromisso para com um projeto. Devo utilizar a meu favor um outro tipo de disciplina que me é muito mais fácil de seguir: aquela para com meus projetos intelectuais. Um truque, sem dúvida, mas nada me custa nele apostar.

Se preferirmos nos exprimir por metáforas poéticas - forma bem mais inteligente de preencher um vazio - vamos nos dedicar a uma mágica que jogue com o que é pleno e o que é vazado!

Não quero ir a mais endocrinologistas ou nutricionistas, investir tempo e energia em planejamentos que não levam em consideração o que me parece agora ser o fator crucial de minha falência em me alimentar adequadamente. Ou seja, que a minha dieta alimentar seja mais coerente com o que eu também considero uma vida mais bem vivida, pois capaz de enfrentar os existenciais vazios e não de insistir em tentar evitá-los de maneira tão primária e autopunitiva como com a ingestão demasiada de comida.

Bem, esta é a primeira página desta história a ser escrita. Vamos ver como se sucederão os próximos capítulos.